domingo, 21 de janeiro de 2018

A volta ao mundo do cinema brasileiro em 80 filmes: 9 – Rien que les heures

Quando iniciei esta viagem, pensava em assistir filmes realizados no Brasil e, a partir de sua fruição, buscar textos que me ajudassem a ampliar a visão de cada filme. Mas, ao batizar a série de "A volta ao mundo do cinema brasileiro em 80 filmes", de certa forma, deixei inconscientemente espaço para filmes de brasileiros realizados em outros países. Afinal, se um filme foi concebido e criado por um brasileiro em Paris, este é um filme francês ou brasileiro? A resposta exata não sei, mas para mim, no caso de Rien que les heures de Alberto Cavalcanti, filmado em Paris em 1926, essa obra-prima desse brasileiro é cinema brasileiro!
Fuçando no Youtube ao final da tarde encontrei uam versão restaurada do filme de Cavalcanti. Do que me lembro de sua biografia(PELIZZARI; VALENTINETTI, 1995) que li alguns anos atrás, ainda jovem, ele foi para Paris e atuou no campo do cinema. Depois foi para Londres onde atuou com a equipe pioneira dos documentários britânicos no General Post Office na década de 30. Na década de 50 veio para o Brasil e aceitou convite de Getulio Vargas para liderar iniciativa governamental no campo do cinema. Por fim, até onde minha memória me ajuda, participou da criação da Vera Cruz em São Paulo na década de 50, o sonho da Hollywood brasileira.

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Imagem título de Rien que les heures
O filme é do tempo do cinema mudo e a versão restaurada tem uma trilha sonora que não sei se é a mesma que acompanhava as projeções do filme à época de seu lançamento. Mas, de qualquer forma, mesmo sem a música, o filme de Alberto Cavalcanti soou para mim como uma poesia visual que nos mostra o cotidiano da vida parisiense nada glamurosa por um dia. Puro cinema poesia!
Como sempre, em minhas viagens pelo cinema brasileiro, entrei no Google Acadêmico e busquei textos sobre Rien que les heures. Encontrei dois artigos.

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Um intertítulo de Rien que les heures



No primeiro, Danielle Crepaldi Carvalho informa que, na Europa, Cavalcanti "teve invulgar importância como teórico e prático do cinema da “opacidade”, para usarmos o termo de Ismail Xavier, experiência que objetivava a criação de um objeto artístico autônomo em detrimento da mimese da realidade estabelecida pela decupagem clássica" (p. 132-133).  No texto de Carvalho aprendi,também, que o filme de Cavalcanti é "considerado o inaugurador do gênero “sinfonia metropolitana”, no qual depois se inscreveriam “Berlin: Die Sinfonie der Grosstadt” (“Berlim: sinfonia da metrópole”, 1927), do alemão Walter Ruttmann; “Chelovek s kinoapparatom” (“O homem da câmera”, 1929), do russo Dziga Vertov e “São Paulo, sinfonia da metrópole” (1929), dos húngaros Adalberto Kemeny e Rudolf Rex Lustig" (p. 134).
Mas, o texto de Carvalho vai muito além desse papel informativo sobre o homem e sua obra-prima. A autora apresenta uma análise de planos, sequências, enquadramentos e cortes do filme enfatizando o uso da montagem paralela por Cavalcanti. A autora aponta, por fim, o diálogo que há entre o filme e os textos escrito por Cavalcanti que seriam publicados em formato de livro em 1953 (Filme e Realidade).

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Reprodução de Rien que les heures
O segundo texto, de autoria de Carlos Gerbase, traz o argumento de que o cineasta Peter Greenaway tem raízes modernistas que podem ser, segundo o autor, associadas aos filmes-sinfonias. Entre eles, Gerbase vai usar Rien que les heures como um dos exemplos de raízes modernistas deste cineasta considerado pós-moderno. Nesse caso, para Gerbase o ponto de união entre o filme modernista de Cavalcanti e as obras pós-modernistas de Greenaway é o uso de palimpsestos. Como o próprio Gerbase explica:
"O palimpsesto tradicional é formado pela descoberta (arqueológica) de um texto que foi apagado de um determinado suporte, para que este recebesse uma nova produção textual. Temos, portanto, dois significantes sobre um mesmo pedaço de pergaminho, papiro, tela ou papel, sendo um mais antigo que outro. Na acepção contemporânea, artistas plásticos pós-modernos constroem seus palimpsestos de forma intencional, pela sobreposição de signos, que vão sendo desvendados através de leituras mais atentas do espectador. No cinema, trata-se de usar as técnicas de fusão (passagem, normalmente bem lenta, de uma imagem para outra), sobreposição (convivência de duas imagens semi-transparentes ocupando todo o quadro) ou divisão do quadro, que mostra múltiplas imagens opacas ao mesmo tempo. Em “Apenas as horas”, Cavalcanti usa todos estes efeitos, desde a primeira imagem, com o título do filme. Greenaway, em seus filmes e vídeos, é um especialista em palimpsestos" (p. 10). 
E mais, para Gerbase, "Cavalcanti e Greenaway compartilham uma crença: a de que o cinema não deve simplesmente mostrar ou reproduzir analogicamente o mundo. O cinema deve simbolizar o mundo, como um texto audiovisual que admita diversas camadas sobrepostas, depois interpretadas pelo público" (p. 10-11).
Em suma, seja pelo filme, seja pelos textos que falam do filme, essa viagem foi muito inspiradora! Como sempre, finalizo com a ficha técnica e as referências citadas.

Ficha técnica (Fonte: IMDB)
Rien que les heures
Ano: 1926
País: França
Directed by Alberto Cavalcanti
Cast  
Blanche Bernis
Nina Chousvalowa
Philippe Hériat
Clifford McLaglen
Music by Larry Marotta

Referências

CARVALHO, D. C. A poesia da cidade moderna: uma leitura de “Rien que les Heures” (1926), de Alberto Cavalcanti. Intertexto,  n.26, p. 132-150, jul. 2012.

CAVALCANTI. A. Filme e Realidade. São Paulo: Livraria Martins Editora S. A., 1953.

GERBASE, C. As raízes modernistas de Peter Greenaway. Sessões do Imaginário - Cinema | Cibercultura | Tecnologias da Imagem, n. 17, p.8-12, 2007.

PELLIZZARI, L.; VALENTINETTI, C. M. Alberto Cavalcanti. São Paulo: Instituto Lina Bo P M Bardi, 1995.

O MERCADO DE CINEMA NO BRASIL EM 2017 – Parte 7 - Quais foram os filmes mais vistos em 2017 no Brasil?

Os trinta filmes de maior público no Brasil em 2017 estão listados na tabela a seguir. Há apenas um filme brasileiro entre eles  - Minha mãe é uma peça 2 – distribuído pela aliança Downtown/Paris. Lançado na primeira semana de dezembro de 2016 continuou em cartaz e atingiu um público de 5.213.465 espectadores. Já em 2016 este filme tinha estado entre os lançamentos de maior publico com 4.020.898 espectadores. Assim, nos dois anos o filme atingiu a marca de 9.234.363 pessoas. A Paris distribuiu dois filmes da lista que foram produzidos nos Estados Unidos. Os outros 27 filmes foram distribuídos pelas majors: Disney (7); Fox (4); Paramount (2); Sony (3); Universal (6); e Warner (5).


Título
Distribuidora
País
Público
Meu Malvado Favorito 3
Universal
Estados Unidos
8.989.024
Velozes e Furiosos 8
Universal
Estados Unidos
8.505.215
Liga da Justiça
Warner
Estados Unidos
8.442.364
A Bela e a Fera (2017)
Disney
Estados Unidos
8.308.489
Mulher-Maravilha
Warner
Estados Unidos
7.011.338
Homem-Aranha - De Volta ao Lar
Sony
Estados Unidos
6.686.527
Logan
Fox
Estados Unidos
6.400.985
Thor - Ragnarok
Disney
Estados Unidos
6.359.663
Minha mãe é uma peça 2
Downtown/Paris
Brasil
5.213.465
Moana - Um Mar de Aventuras
Disney
Estados Unidos
5.147.838
A Cabana
Paris
Estados Unidos
5.117.598
Cinquenta Tons Mais Escuros
Universal
Estados Unidos
4.628.437
It - A coisa
Warner
Estados Unidos
4.414.235
Guardiões da Galáxia Vol. 2
Disney
Estados Unidos
4.207.641
Extraordinário
Paris
Estados Unidos
4.183.535
Piratas do Caribe - A Vingança de Salazar
Disney
Estados Unidos
3.659.613
O Poderoso Chefinho
Fox
Estados Unidos
3.228.474
Star Wars - Os últimos jedi
Disney
Estados Unidos
3.155.131
A Múmia
Universal
Estados Unidos
3.052.636
Annabelle 2 - A criação do mal
Warner
Estados Unidos
2.957.275
Transformers: O último cavaleiro
Paramount
Estados Unidos
2.858.033
Planeta dos macacos - A guerra
Fox
Estados Unidos
2.694.893
Carros 3
Disney
Estados Unidos
2.524.401
Assassin's Creed
Fox
França, Estados Unidos
2.058.767
Kong - A Ilha da Caveira
Warner
Estados Unidos
1.902.480
A Grande Muralha
Universal
Estados Unidos
1.717.008
Emoji - O filme
Sony
Estados Unidos
1.683.691
Pica-Pau
Universal
Estados Unidos
1.617.414
O Chamado 3
Paramount
Estados Unidos
1.535.871
Os Smurfs e a Vila Perdida
Sony
Estados Unidos
1.464.289

O MERCADO DE CINEMA NO BRASIL EM 2017 – Parte 6 - O Market share das distribuidoras em 2017

As empresas distribuidoras dos filmes estrangeiros não atuaram em muitas codistribuição. Como foi visto na seção sobre distribuição dos lançamentos brasileiros, houve parceria para distribuição de 26 filmes. Quando se considera o total de filmes exibidos nos cinemas em 2017, o número de codistribuições sobe para 35. A maioria das codistribuições, portanto, foi de lançamentos de filmes brasileiros, em especial pela aliança Downtown/Paris como já comentado. Nesse mercado atuaram 114 distribuidoras, a maioria delas de forma isolada e um pequeno número em parcerias de distribuição.

O mercado conta com a presença de empresas nacionais e estrangeiras de pequeno e médio porte. O domínio da distribuição de filmes para as salas de cinema no Brasil é de um pequeno número de grandes empresas estrangeiras e nacionais. Entre as pequenas empresas, 60 distribuíram apenas um filme.

A Vitrine Filmes foi a que teve o maior número de filmes distribuídos, 61. No entanto, sua participação no mercado em termos de público e renda chegou a apenas 0,3%. A Vitrine filmes atua em um espaço de mercado de filmes brasileiros de menor apelo popular. Em segundo lugar está a Imovision com 59 filmes que atua na distribuição de filmes independentes atingindo em torno de 0,40% do mercado de público e renda.

Quando as distribuidoras são classificadas por renda obtida e público observa-se o predomínio das chamadas Majors norte-americanas. Disney, Universal, Warner, Fox e Sony ocupam as cinco primeiras posições e representam, em conjunto, 75% da renda e 74% do público de cinema em 2017. Na sexta posição está a Paris, seguida pela sua aliança com a Dowtown em sétimo lugar. As duas posições representam 15% e 16% de renda e público, respectivamente. Em oitavo lugar está a Paramount, outra major norteamericana com 5% do mercado. Por fim, completam as dez primeiras posições a Diamond Films do Brasil e a Imagem com pouco mais de 1% do mercado.

Além da participação do mercado de cada distribuidora, com as informações disponibilizadas pelo OCA, a força de mercado das empresas pode ser medida por dois indicadores de produtividade: média de número máximo de salas ocupada por filme distribuído; e média de público pela média de número máximo de salas ocupadas. Por meio destes indicadores, a posição de cada distribuidora foi identificada.

Quando classificadas pela média de número máximo de salas, as posições pouco se alteram. Disney, Universal e Warner continuam nas primeiras posições. Em quarto lugar aparecer a parceria entre H2O Films e Universal que distribuiu apenas um filme, o brasileiro Os Penetras 2 - Quem dá mais?. Depois surgem Fox, Paramount e Sony. Isto demonstra o poder de mercado que as majorstêm no Brasil. A parceria Dowtown/Paris surge na sétima posição.

Todavia, a classificação por público/média de máximo de salas traz algumas surpresas. A ordem de classificação das dez primeiras é: Paris, Warner, Imovision, Universal, Fox, Sony, Disney, Downtown/Paris, Paramount e Vitrine Filmes. A Imovision e a Vitrine Filmes, empresas de menor porte, estão em terceiro e décimo lugar, respectivamente. A tabela a seguir apresenta os dados das vinte maiores participações no mercado classificadas por renda.


Distribuidora
Renda
% Renda
Público
% Público
Média de Máximo de Salas
Filmes
Público/Média de Máximo de Salas
Disney
519.569.006,00
19,13
33.620.937
18,56
649,12
17
51.794,83
Universal
493.839.073,50
18,18
33.442.908
18,46
608,16
19
54.990,50
Warner
469.321.991,00
17,28
30.726.837
16,96
479,48
25
64.083,67
Fox
293.281.136,54
10,80
19.433.688
10,73
369,38
24
52.612,35
Sony
252.556.036,50
9,30
16.428.602
9,07
316,11
28
51.971,63
Paris
223.162.050,44
8,21
15.520.326
8,57
190,57
42
81.440,99
Downtown/Paris
182.659.658,78
6,72
13.243.907
7,31
314,77
22
42.074,51
Paramount
136.547.949,00
5,03
9.165.202
5,06
341,22
18
26.859,92
Diamond Films do Brasil
34.041.639,47
1,25
2.058.292
1,14
142,25
20
14.469,54
Imagem
32.775.174,74
1,21
2.163.215
1,19
196,35
23
11.017,26
Califórnia
15.027.220,75
0,55
934.237
0,52
50,67
27
18.438,89
Imovision
11.555.536,05
0,43
740.827
0,41
12,03
59
61.561,68
H2O Films
11.384.264,14
0,42
811.942
0,45
147,78
9
5.494,34
Vitrine Filmes
7.119.275,76
0,26
545.901
0,30
21,48
61
25.419,82
Playarte
6.717.836,38
0,25
472.066
0,26
154,17
6
3.062,05
H2O Films/Universal
5.594.424,97
0,21
401.960
0,22
447,00
1
899,24
Alphaville Filmes
3.657.565,41
0,13
262.049
0,14
23,40
30
11.198,68
Cineart Filmes
2.715.673,23
0,10
180.121
0,10
28,55
11
6.309,97
Pandora
1.847.360,94
0,07
131.263
0,07
8,27
22
15.866,96
Europa
1.590.702,83
0,06
103.344
0,06
31,83
6
3.246,41