sexta-feira, 27 de março de 2020

A PRESENÇA DA MULHER NA DIREÇÃO DO CINEMA BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO - Parte 1

Com base em informações disponíveis no site do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual - OCA (https://oca.ancine.gov.br/cinema), estou desenvolvendo estudos sobre a presença da mulher na direção do cinema brasileiro contemporâneo. Entre as inúmeras desigualdades da indústria do cinema no Brasil, se destaca a baixa participação feminina na direção de obras audiovisuais.

O tema, inclusive, foi foco de ação da Agência Nacional de Cinema que, em novembro de 2017, instalou a Comissão de Gênero, Raça e Diversidade da ANCINE. O objetivo da comissão é desempenhar atividades voltadas à promoção da inclusão, diversidade e igualdade de oportunidades no âmbito da ANCINE.

As informações analisadas estão disponíveis no arquivo intitulado "Listagem de Filmes Brasileiros lançados 1995 a 2018" (https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/excel/2102.xlsx). Para o ano de 2019, as informações preliminares foram colhidas no arquivo "Resultados Mensais do Cinema Brasileiro (https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/excel/resultados_mensais_do_cinema_brasileiro_-_dados_sadis_detalhado_2019.xlsx).

No primeiro arquivo há dados detalhados para 1.742 filmes brasileiros lançados nas salas de cinema entre 1995 e 2018. Esses dados incluem: ano de lançamento; certificado de produto brasileiro (CPB); título; direção; gênero; empresa produtora brasileira majoritária e unidade da federação; empresa produtora minoritária brasileira e unidade da federação; distribuidora; máximo de salas; renda; e público.

No segundo arquivo, entre outras informações, encontra-se a listagem de todos os filmes exibidos nas salas de cinema brasileiras em 2019. Esta listagem parcial indica que, além de filmes que já tinha sido lançados em anos anteriores, foram exibidos 129 filmes brasileiros lançados entre 17/01/2019 e 19/12/2019. Todavia, as informações sobre estes filmes não são exatamente as mesmas do primeiro arquivo. Nesta listagem estão disponíveis dados sobre: título da obra; certificado de produto brasileiro (CPB); gênero; data de lançamento; distribuidoras; público; e renda (R$). Não estão disponíveis as informações sobre empresas produtoras, unidades da federação, máximo de salas e direção. 

Além disso, no documento "Informe Anual Preliminar Salas de Exibição 2019" (https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/pdf/informe_preliminar_2019.pdf), é informado que em 2019, foram lançados 171 filmes brasileiros, ou seja, 42 filmes a mais do que a informação disponível no segundo arquivo mencionado acima. Dessa forma, para tentar completar os dados sobre 2019, fiz uma busca no site Filme B que disponibiliza, entre outras, informações sobre as estréias de filmes brasileiros em cada ano. Este esforço permitiu que, para 2019 (http://www.filmeb.com.br/calendario-de-estreias/nacionais?tp=y&field_estreia_data_estreia_value[min][date]=2019-01-01&field_estreia_data_estreia_value[max][date]=2020-01-01), eu localizasse mais 47 filmes brasileiros. Isto fez com que o total de filmes brasileiros lançados em 2019 chegasse a 176 filmes, cinco a mais do que o informado no OCA.

Com base nessa relação total de 1.918 filmes, foi feita uma listagem dos nomes de todos os diretores e diretoras infromados. O resultado encontrado mostrou que, nesses 25 anos, 1.285 cineastas conseguiram lançar ao menos um filme nos cinemas brasileiros. Os nomes foram, então, analisados para identificar se eram mulheres ou homens. Nos casos em que os nomes não fossem claramente masculinos ou femininos, fiz uma busca na internet para identificar caso a caso. Ao cabo, foram identificadas 262 mulheres e 1.023 homens, ou seja, pouco mais de um quarto dos cineastas que lançaram filmes brasileiro entre 1995 e 2019 são mulheres (25,61%). Um resultado altamente desproporcional em termos de gênero.

Minha intenção é descrever diversos aspectos da presença das mulheres nessse mercado. Começo mostrando a participação delas ao longo desses 25 anos. Isto é mostrado no gráfico e tabela abaixo. Em outros posts abordarei outras questões.

No gráfico, pode-se ver a evolução do número de homens e mulheres que lançaram filmes nas salas de cinema do Brasil nesse período. Como pode ser notado, embora o número de mulheres tenha aumentado ao longo desse período, este cresicmento não conseguiu acompanhar o crescimento do número de homens dirigindo filmes brasileiros lançados em cinemas. A tabela mostra a variação na proporção de mulheres e homens ao longo dos anos. Observe que o total não é a soma de cada coluna, pois há cineastas que lançaram filmes em vários anos. Mas, esta é uma informação para outro post.


Ano
Homens
Mulheres
% M/H
Total
1995
12
3
25,00
15
1996
15
5
33,33
20
1997
18
5
27,78
23
1998
23
6
26,09
29
1999
28
2
7,14
30
2000
21
3
14,29
24
2001
27
10
37,04
37
2002
25
6
24,00
31
2003
23
6
26,09
29
2004
49
6
12,24
54
2005
36
12
33,33
48
2006
60
13
21,67
73
2007
74
13
17,57
87
2008
81
12
14,81
93
2009
80
17
21,25
97
2010
71
17
23,94
88
2011
86
20
23,26
106
2012
78
24
30,77
102
2013
136
26
19,12
162
2014
120
13
10,83
133
2015
125
28
22,40
153
2016
127
30
23,62
157
2017
147
36
24,49
183
2018
163
58
35,58
221
2019
154
42
27,27
196
Total
1023
262
25,61
1285

sábado, 1 de fevereiro de 2020

A presença de filmes brasileiros nos lançamentos em salas de cinema brasileiras em 2019


Há pouco mais de dez dias, foi publicado no Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (oca.ancine.gov.br) o arquivo “Resultados Mensais do Cinema Brasileiro – Dados Sadis Detalhado 2019) que traz informações sobre o comportamento de público e renda do mercado de exibição de filmes em salas de cinema no Brasil. Anualmente, a partir desses dados, sintetizo nesse blog, alguns dos resultados do filme brasileiro nesse mercado. Vamos lá, então!
Em primeiro lugar, alguns dados gerais. Em 2019, foram exibidos 626 filmes nas salas de cinema. Desse total, dois terços foram filmes estrangeiros e um terço (211) brasileiros. Esses números representam uma redução, em comparação com 2018, para as duas categorias, no número de filmes exibidos no mercado. No ano anterior, foram 707 filmes, sendo 454 estrangeiros (64%) e 253 brasileiros (36%). As proporções, no entanto, sofreram pouca alteração, com perto de dois terços dos filmes exibidos nas salas de cinema do Brasil, oriundos de outros países. Embora neste arquivo não haja informações sobre os países de produção dos filmes, como em outros anos, o domínio da produção hollywoodiana deve ter se mantido em 2019 no mercado de exibição brasileiro.
No entanto, apesar da redução do número de filmes exibidos, o público total de cinema teve crescimento em 2019. Foram vendidos 176.346.636 ingressos em 2019. Um crescimento de 7,89% em relação a 2018. De igual forma, a renda de bilheteria obtida em 2019, em valores nominais, também cresceu. Nesse caso, o aumento foi de 13,49%, muito acima da inflação de 2019 que foi de 4,31%, medida pelo IPCA, conforme dados do IBGE (https://www.ibge.gov.br/explica/inflacao.php). Ir ao cinema ficou mais caro em 2019!
Aliás, a questão do preço de ir ao cinema no Brasil é evidenciada pelo indicado PMI em reais, que representa média do ingresso pago pelos espectadores de cinema. No geral, entre 2018 e 2019, houve aumento nesse indicador de 5,19%, passando de R$ 15,04 para R$ 15,82. No entanto, esse acréscimo foi muito maior para os filmes brasileiros, cujo PMI oscilou de R$ 11,97 para R$ 13,77, variação de 15,06%. Por outro lado, o PMI dos filmes estrangeiros cresceu muito menos, apenas 3,82%. Isto significou um acréscimo de R$ 0,60 sobre o valor de 2018 que foi R$ 15,57.
Essa diferença de comportamento se refletiu, ainda, no crescimento das bilheterias de cada categoria de filme. A renda de bilheteria dos filmes nacionais teve um crescimento de 21,55%, enquanto o dos filmes estrangeiros foi de 12,42%. Isso em número absolutos é representado  por R$ 352.613.884,00 para os filmes brasileiros em 2019, contra R$ 2.437.379.639,00 dos filmes estrangeiros. Assim como no caso de número de filmes exibidos, o faturamento de bilheteria dos filmes estrangeiros foi muito maior do que o dos filmes brasileiros, 6,91 vezes mais.
Os números acima se referem ao total de filmes exibidos, sejam brasileiros, estrangeiros ou em conjunto. No entanto, um indicador importante para entender a dinâmica do mercado de exibição diz respeito ao número de filmes lançados em cada ano. Assim, ao olharmos para esses números, temos um quadro que traz informações negativas e positivas. Vamos a elas!
Em primeiro lugar, o número de filmes brasileiros lançados em 2019 foi menor do que os lançamentos de 2018. Uma queda de 43,41%! Em 2019, esse número foi de 129 lançamentos, enquanto que, em 2018, foram 185. Este fato representa uma quebra na tendência de crescimento constante np número de lançamentos brasileiros desde 2015. Difícil apontar as razões desse decréscimo, mas não podemos deixar de registrar a polêmica de cancelamento do lançamento do Marighela que, após muita discussão, será lançado em 2020.
Em segundo lugar, o público dos filmes brasileiros lançados em 2019, também, foi menor do que o alcançado em 2018. Nesse caso, houve uma queda de 4,09%, baixando de 21.538.908 para 20.658.651 ingressos vendidos.
O dado positivo é que a renda de bilheteria dos lançamentos brasileiros, no entanto, cresceu 9,26% em 2019, atingindo R$ 277.706.249,00. Esse valor representou 10,50% da bilheteria total dos lançamentos nacionais e estrangeiros de 2019. Ao mesmo tempo, o público de 2019 dos lançamentos brasileiros representou 12,37% do total de públicos dos lançamentos do ano passado.
Mesmo com o crescimento da bilheteria dos lançamentos nacionais em, 2019, o número de filmes brasileiros entre os 50 de maior renda no ano passado foi apenas oito! Quando verificamos as dez maiores bilheterias de 2019, entre os lançamentos, há apenas um brasileiro.
Os dados disponibilizados pelo OCA não indicam as produtoras dos lançamentos brasileiros, nem, tampouco, os estados de origem dos filmes. Todavia, há informação sobre as distribuidoras que atuaram nesse mercado. Assim, podemos observar que o mercado de lançamentos de filmes brasileiros nas salas de cinema é dominado por duas empresas que atuam nesse mercado de forma isolada e em aliança estratégica. Em 2019, a Paris e a Dowtown obtiveram 74,67% da renda de bilheteria dos lançamentos nacionais, da seguinte forma: Paris, com seis filmes e R$ 109.094.684,00; Dowtown, com quatro filmes e R$ 40.536.448,00; e a codistribuição Downtown/Paris, com dois filmes e R$ 57.721.783. Um mercado altamente concentrado, em que mais 45 empresas dividem 25% do mercado!
Aliás, se você quiser conhecer um pouco mais desse mercado, abordei com alguns pesquisadores diferentes aspectos desse mercado em três artigos recentemente: a) A competição na distribuição do cinema brasileiro de 1995 a 2017 (http://www.relici.org.br/index.php/relici/article/view/221); b) A presença do filme nacional nas salas de cinema do Brasil: um estudo sobre a codistribuição (http://200.144.145.24/galaxia/article/view/30963); e c) Mapeando as relações de coprodução e codistribuição no cinema brasileiro: uma análise pela ótica da teoria de redes (http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1809-58442018000100041&script=sci_arttext)
Na tabela são demonstrados os dados dos 20 filmes brasileiros, lançados em 2019, com maior bilheteria. Como se pode ver, oito filmes (40%) foram distribuídos por estas duas empresas, inclusive, os cinco de maior bilheteria. 
Título da Obra
Distribuidoras
Público
Renda (R$)
Nada a perder 2
Paris
6.193.133
59.787.580
De pernas pro ar 3
Downtown/Paris
3.590.714
55.927.426
Minha mãe é uma peça 3
Downtown
2.422.254
38.037.507
Turma da mônica - laços
Paris
2.128.448
30.422.828
Os parças 2
Paris
1.308.089
18.535.690
Vai que cola 2 - o começo
H2O Films
804.535
11.907.658
Kardec
Sony
749.599
11.854.147
Bacurau
Vitrine Filmes
735.191
11.284.729
Sai de baixo, o filme
Imagem
470.100
6.935.700
Divaldo – o mensageiro da paz
Disney
430.704
6.807.617
Cinderela pop
Disney/Vitrine Filmes
477.488
6.441.968
Ela disse, ele disse
Imagem
241.418
3.412.254
A vida invisível
Sony
117.222
2.010.086
Hebe - a estrela do brasil
Warner
117.058
1.986.774
Minha fama de mau
Downtown/Paris
110.857
1.794.357
Eu sou mais eu
Imagem
126.874
1.706.441
Chorar de rir
Warner
82.715
1.250.625
Simonal
Downtown
65.629
1.190.012
O amor dá trabalho
Downtown
58.666
912.017

terça-feira, 1 de outubro de 2019

A presença feminina na direção e produção executiva de filmes brasileiros lançados nos cinemas entre 2014 e 2018

Encontra-se no site do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual uma publicação sobre a presença feminina no mercado de auviodisual brasileiro. Esse documento pode  ser acessado em: https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/pdf/participacao_feminina_na_producao_audiovisual_brasileira_2018_0.pdf.
O foco principal do documento se refere a resultados referentes a 2016 e 2018, que complementam os dados divulgados anteriormente sobre os anos 2015 e 2016 (ver https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/pdf/participacao_feminina_na_producao_audiovisual_brasileira_2015.pdf e https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/pdf/participacao_feminina_na_producao_audiovisual_brasileira_2016.pdf).
Mas, no caso específico dos lançamentos brasileiros voltados paras as salas de cinema, o documento publicado esse ano traz informações sobre a presença feminina em cargos de direção e produção executiva relativos aos últimos cinco anos.
Assim, pode-se perceber que, ao longo desses anos, a presença feminina tem crescido gradativamente, passando de 14% em 2014 para 22% em 2018, quando miramos os cargos de direção. Se adicionarmos os filmes que tiveram direção mista, isto é, compartilhada entre mulheres e homens, estes totais foram de 30% e 45%, respectivamente. Esses números mostram que, ainda, a presença feminina isolada na direção de filmes brasileiros lançados nos cinemas é muito menor do que a dos homens que foi de 70% em 2014 e 55% em 2018.
Outro dado interessante desse documento diz respeito à participação no público total dos filmes dirigidos pelas mulheres. Nesse caso, a presença feminina tem sido muito pequena, 4% em 2014 e 2% em 2018. Em 2016, no entanto, houve um pico de participação dos filmes dirigidos por mulheres no público de cinema que chegou a 34%. Esse desempenho em 2016 pode ser devido, especialmente, ao sucesso de dois filmes dirigidos por mulheres que ficaram entre os de maior público nos cinema naquele ano. O filme "É fada!" de Cris D'Amato teve um publico de 1.722.069 espectadores e "Um namorado para minha mulher" de Júlia Rezende que foi visto por 665.999 pessoas. Ambos os filmes foram distribuídos pela Downtown Filmes que detém a maior parcela de público dos lançamentos de filmes brasileiros, Esta informações podem ser conferidas em https://oca.ancine.gov.br/sites/default/files/repositorio/excel/2102.xlsx.
Enquanto que a presença de cineastas mulheres no cinema brasileiro é muito pequena, a presença de mulheres na produção executiva desses filmes é bem diferente. A participação de mulheres no total de filmes lançados entre 2014 e 2018 foi, em média, de 44%. E, a participação no público total das salas de cinema nesse anos foi ainda maior entre 2014 e 2017: 51%. Todavia, em 2018 essa participação caiu para apenas 19%!
Vale a pena conhecer os três estudos que são livremente acessados no site do Observatório.

domingo, 1 de setembro de 2019

A volta ao mundo do cinema brasileiro em 80 filmes 10 - O corpo é nosso

Domingo chuvoso! Friozinho me atraiu para a cama. Depois daquela soneca, acordei disposto a retomar esta viagem! Esta retomada estava planejada desde ontem de manhã. Sábado pela manhã, sempre que posso, vou às sessões especiais do Clube do Professor oferecidas pelo Itaú Cinema. Ontem, na programação o documentário O Corpo é Nosso dirigido por Theresa Jessouron. A princípio pensei em deixar passar, mas, estimulado por Edra que se interessou pelo tema, acabei concordando. Lá fomos nós. Ainda bem que não perdemos a oportunidade!
Brilhantemente executado, o filme aborda temática do feminismo orientado especialmente por um olhar para a questão do corpo da mulher negra e sua ligação com a música brasileira. O documentário é também composto por trechos de ficção em que se conta a história de jornalista, homem, que recebe a tarefa de escrever reportagem sobre o feminismo. Inicialmente ele resiste à ideia que lhe é determinada por seu editor-chefe, inclusive por uma questão de lugar de fala. Mas, ao final não tem como deixar de cumprir esta missão que lhe trará uma surpresa sobre parte de seu passado, até então desconhecido para ele mesmo.

O documentário, assim, segue esta tendência contemporânea de misturar realidade e ficção. Theresa Jessouron faz isto com maestria. O filme é uma peça híbrida - docudrama - em que além do tradicional uso das entrevistas com especialistas de diversos campos do conhecimento e de mulheres que vivem o drama real da luta feminista no Brasil, faz uso também de registros de arquivos fotográficos e de trechos do cinema brasileiro para desenvolver seu argumento sobre o feminismo.
O que me chamou a atenção, além do uso de diversas fontes de informação sobre o tema, foi a forma com que realidade e ficção se misturam ao longo dos 85 minutos do filme. O excelente trabalho de montagem, e a direção dos atores que representam a parte ficcional do filme revelam, por um lado, o esforço de pesquisa na construção do roteiro sobre tema tão relevante; e por outro lado, o cuidado de dar consistência diegética a uma história que, embora ficcional, deve ter ocorrido inúmeras vezes em nossa sociedade. Há momentos em que esta mistura ocorre de forma muito bem elaborada em que documento e ficção se tornam quase indistinguiveis. Há vários trechos em que o jornalista da ficção é mostrado assitindo às gravações das entrevistas que são parte do documentário. Uma composição híbrida fantástica!
Como tenho feito nessa minha viagem, parto em busca de textos acadêmicos/científicos que tenham tratado do filme na literatura sobre cinema. Neste caso, como era esperado, não encontro nada, pois é uma produção recente lançada há pouco nos cinemas brasileiros. De qualquer forma, me lembro de texto que, na qualidade de editor, publiquei no número 3 do volume de 2019 da Revista Livre de Cinema. É o artigo Feminismo em cena: análise da representação das ondas feministas em documentários. Escrito por João Henriques de Sousa Júnior, Laís Mota Plácido e Samantha Barbosa Cordeiro, o texto trata da análise de conteúdo de dois documentários feministas e sua relação com as ondas do movimento feministas que as autoras identificaram na literatura: sufragismo, revolução sexual e pós-feminismo. É muito provável que O Corpo é Nosso, pelo que pude apreender do texto, se foque principalmente na terceira onda, o pós-feminismo
Mas, minha busca no google acadêmico evidencia que o tema do feminismo associado ao cinema brasileiro já foi explorado em outros momentos. Assim, por exemplo, cito os textos de Calegari (2009), Tedesco (2012), Silva (2012) e Klanovicz (2006). 
Mantendo o padrão dessa viagem, encerro com informações sobre o filme:


Sinopse: O CORPO É NOSSO! é um documentário sobre a trajetória da liberação do corpo da mulher brasileira. Utilizando-se do docficção, o filme incorpora o drama do jornalista Marcos que, na sua pesquisa, faz uma descoberta impactante sobre seu passado. Ao assistir as entrevistas e o material deste filme, em um exercício de metalinguagem, ele faz uma autorreflexão sobre o racismo e o machismo impregnados nele e na sociedade. O filme mescla entrevistas, cenas ficcionais e imagens de arquivo que ilustram os fatores que contribuíram para esta liberação e propõe uma discussão sobre o feminismo através da desconstrução do masculino (https://filmow.com/o-corpo-e-nosso-t281437/ficha-tecnica/)

Ficha técnica:
Roteiro: Jorge Duran/Theresa Jessouroun
Direção: Theresa Jessouroun
Elenco: Renato Góes/Roberta Rodrgiues/Heitor Martinez/Oscar Magrini
Produtores: Sabrina Bittencourt/Theresa Jessouroun
Ano de lançamento: 2019

Referências:

CALEGARI, L. C. A mulher no cinema brasileiro e a tentativa de afastamento da heteronormatividade. Diálogos Latinoamericanos, n. 15, 20 p., 2009.

Klanovicz, L. R. F. Corpos erotizados: entre a morena brasileira e a loira americana (cinema das décadas de 80 e 90). Artemis, v. 4, p. 1-21, 2006.

Silva. A. da Quando as mulheres filmam: história e gênero no cinema dos anos da ditadura. Revista Esboços, v. 19, n. 27, p. 14-31, 2012.

Souza Júnior, J. H. de; Plácido, L. M.; Cordeiro, S. B. Feminismo em cena: análise da representação das ondas feministas em documentários. Revista Livre de Cinema, v. 6, n. 3, p. 119-147, 2019.

Tedesco, M. C. Da esfera privada à realização cinematográfica: a chegada das mulheres latino-americanas ao posto de diretoras de cinema. Extraprensa, a. vi, n. 10, p. 97-105, 2012.