domingo, 11 de maio de 2014

O ESPAÇO DO CINEMA LATINO AMERICANO NO MERCADO EXIBIDOR BRASILEIRO

Hoje pela manhã, assisti a Lucía, filme cubano dirigido por Humberto Solás, lançado em 1968. Depois de vê-lo, fiquei refletindo sobre as pouquíssimas oportunidades que tive de ver filmes de Cuba em uma sala de cinema no Brasil. O que assisti hoje foi em DVD, presente de Paloma, minha filha, que esteve em Havana alguns meses atrás.

Aliás, um filme belíssimo que, em três partes, aborda questões de gênero, associadas à opressão sofrida pelas mulheres , discutindo a mulher cubana em épocas distintas, ao mesmo tempo em que narra aspectos da história das lutas internas cubanas. Os contos que compõem o filme são localizados em períodos históricos distintos (1895, 1933 e algum ano da década de 60). Além disso, a protagonista em cada um deles é uma mulher, cujo nome é sempre Lucía. Filmado inteiramente em preto e branco, cada parte tem um ritmo próprio, mas o conjunto parece ter uma organicidade que vai nos emocionando com o tom dramático de cada narrativa.

Com exceção do cinema argentino, que é mais frequente nas salas brasileiras, não consigo me lembrar de ter assistido a muitos filmes da América Latina. Com isso na cabeça, resolvi descobrir qual tem sido o espaço do cinema latino americano no Brasil. Resolvi explorar o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (oca.ancine.gov.br).

Dados disponíveis evidenciam a ínfima presença do cinema latino americano no circuito exibidor brasileiro. As informações estão categorizadas em dois tipos: filmes lançados e filmes exibidos anualmente. Para os lançamentos anuais, foi possível verificar a evolução entre 2009 e 2013. No entanto, as estatísticas sobre os filmes exibidos em 2013 ainda não estão disponíveis, apenas para o período entre 2009 e 2012.

De maneira geral, a Argentina é o país cuja produção cinematográfica teve o maior número de lançamentos nesse período. Foram 34 filmes, um média próxima de sete filmes ao ano. A presença de outros países tem sido insignificante, em média com menos de um filme ao ano. Nesses cinco anos, houve o lançamento de 57 filmes oriundos de sete países latino-americanos, que representaram apenas 3,40% dos filmes lançados no Brasil entre 2009 e 2013. Nesse período, os filmes brasileiros tiveram uma participação oito vezes maior, chegando a 27,89% dos lançamentos.

FILMES LANÇADOS – 2009/2013
País de produção
2009
2010
2011
2012
2013
Total
%
Argentina
6
3*
7
7
11**
34
2,03
Chile
1
0
1
2
1
5
0,30
Colômbia
0
1
0
0
0
1
0,06
México
1
1
2*
0
2
6
0,36
Peru
1
0
2
0
0
3
0,18
Uruguai
1
0
3
1
2
7
0,42
Venezuela
0
0
0
0
1
1
0,06
América Latina
10
5
15
10
17
57
3,40
Brasil
84
74
100
83
127
468
27,89
Total
317
302
337
325
397
1678
100
*Um filme em coprodução com a Espanha - **Dois filmes em coprodução com a Espanha
Fonte: elaborado com base em dados disponíveis em www.oca.ancine.gov.br

No que diz respeito aos filmes exibidos em cada ano, cujos dados incluem filmes que foram lançados em outros anos e entraram novamente em exibição no mercado brasileiro, a participação dos filmes latino-americanos não se altera, apesar do maior número de filmes em exibição.

FILMES EXIBIDOS 2009/2012
País de produção
2009
2010
2011
2012
Total
%
Argentina
15
11*
11*
10
47
2,16
Chile
1
0
2
2
5
0,23
Colômbia
0
1
0
0
1
0,05
México
3
2
3*
1
9
0,41
Peru
1
1
2
0
4
0,18
Uruguai
1
1
4
2
8
0,37
América Latina
21
16
22
15
74
3,41
Brasil
175
137
165
136
613
28,22
Total
588
510
560
514
2172
100
* Um filme em coprodução com a Espanha
Fonte: elaborado com base em dados disponíveis em www.oca.ancine.gov.br

A participação em público e renda de bilheteria dos filmes latino-americanos é também muito baixa, sendo menor do que a sua participação em número de filmes. Tanto a média de público dos filmes latino-americanos lançados no Brasil entre 2009 e 2013, quanto a média de participação na renda de bilheteria representaram menos que 0,3% do total.

No mesmo período, a participação média dos lançamentos brasileiro em termos de público foi de 14,81%. Em termos de renda bruta, os lançamentos brasileiros ficaram com a média de 13,85% da bilheteria total dos filmes lançados nesses cinco anos.

Filmes Lançados - Participação em Público e Renda – 2009/2013
Ano
Item
América Latina
Brasil
Total
N
%
N
%

2009
Público
159.042
0,14
15.820.519
14,91
106.112.387
Renda Bruta (R$)
1.325.400,04
0,13
130.933.921,47
14,23
919.995.853,83
2010
Público
385.653
0,30
24.016.898
19,33
124.271.425
Renda Bruta (R$)
3.842.028,00
0,33
214.816.852,98
18,63
1.153.276.763,55
2011
Público
739.905
0,53
17.082.188
12,29
138.975.756
Renda Bruta (R$)
8.194.097,56
0.57
157.800.667,87
11,17
1.412.920.632,86
2012
Público
100.158
0,07
15.514.420
10,98
141.311.765
Renda Bruta (R$)
1.160.208,18
0,07
156.940.774,58
10,10
1.554.021.322,03
2013
Público
534.566
0,37
23.598.532
16,55
142.565.229
Renda Bruta (R$)
6.278.433,45
0,37
253.658.726,47
15,14
1.675.898.384,46
Fonte: elaborado com base em dados disponíveis em www.oca.ancine.gov.br

Nas tabelas a seguir, são apresentados os dados de cada país no que se refere a filmes lançados e exibidos.

FILMES LANÇADOS
2009
País de produção
Títulos
%
Público
%
Renda Bruta (R$)
%
Argentina
6
1,89
74.423
0,07
668.758,83
0,07
Chile
1
0,32
160
0,00
1.285,50
0,00
México
1
0,32
1.464
0,00
12.738,00
0,00
Peru
1
0,32
67.811
0,06
504.852,00
0,05
Uruguai
1
0,32
15.184
0,01
137.765,71
0,01
2010
País de produção
Títulos
%
Público
%
Renda Bruta (R$)
%
Argentina
3*
0,66
52.486
0,04
527.985,82
0,05
Colômbia
1
0,33
530
0,00
5.045,19
0,00
México
1
0,33
4.509
0,00
34.647,81
0,00
2011
País de produção
Títulos
%
Público
%
Renda Bruta (R$)
%
Argentina
7
2,08
569.170
0,41
6.412.038,45
0,45
Chile
1
0,30
1.172
0,00
12.561,15
0,00
México
2*
0,30
16.511
0,01
187.035,28
0,01
Peru
2
0,59
24.879
0,02
253.746,95
0,02
Uruguai
3
0,89
30.442
0,02
303.711,89
0,02
2012
País de produção
Títulos
%
Público
%
Renda Bruta (R$)
%
Argentina
7
2,15
78.077
0,06
920.533,97
0,06
Chile
2
0,62
17.858
0,01
201.296,64
0,01
Uruguai
1
0,31
4.223
0,00
38.377,57
0,00
2013
País de produção
Títulos
%
Público
%
Renda Bruta (R$)
%
Argentina
9
2,27
512.478
0,36
6.018.642,19
0,36
Chile
1
0,25
6.297
0,00
82.444,00
0,00
Cuba
2
0,50
3.223
0,00
40.484,66
0,00
México
2
0,50
10.161
0,01
113.356,70
0,01
Uruguai
2
0,50
2.395
0,00
23.439,90
0,00
Venezuela
1
0,25
12
0,00
66,00
0,00
*Um filme em coprodução com a Espanha
Fonte: elaborado com base em dados disponíveis em www.oca.ancine.gov.br

FILMES EXIBIDOS
2009
País de produção
Títulos
%
Público
%
Renda Bruta (R$)
%
Argentina
15
2,55
84.049
0,07
698.811,35
0,07
Chile
1
0,17
160
0,00
1.285,50
0,00
México
3
0,51
2.695
0,00
18.835,80
0,00
Peru
1
0,17
67.811
0,01
504.852,00
0,01
Uruguai
1
0,17
15.184
0,01
137.765,71
0,01
2010
País de produção
Títulos
%
Público
%
Renda Bruta (R$)
%
Argentina
11*
1,96
59.149
0,04
574.600,91
0,05
Colômbia
1
0,20
530
0,00
5.045,19
0,00
México
2
0,39
5.071
0,00
38.582,81
0,00
Peru
1
0,20
5.631
0,00
17.854,00
0,00
Uruguai
1
0,20
681
0,00
4.158,00
0,00
2011
País de produção
Títulos
%
Público
%
Renda Bruta (R$)
%
Argentina
11*
1,79
593.294
0,41
6.628.672,25
0,46
Chile
2
0,36
1.292
0,00
13.296,15
0,00
México
3*
0,36
16.605
0,01
187.764,17
0,01
Peru
2
0,36
24.879
0,02
253.746,95
0,02
Uruguai
4
0,71
30.605
0,02
304.722,89
0,02
2012
País de produção
Títulos
%
Público
%
Renda Bruta (R$)
%
Argentina
10
1,95
126.156
0,09
1.399.903,95
0,09
Chile
2
0,39
17.858
0,01
201.296,64
0,01
México
1
0,19
1.168
0,00
7.106,00
0,00
Uruguai
2
0,39
4.322
0,00
38.898,57
0,00
Fonte: elaborado com base em dados disponíveis em www.oca.ancine.gov.br

Concluindo, o retrato que esses números nos revelam é muito frustrante. Não estamos tendo a oportunidade de conhecer a produção cinematográfica que é feita tão próxima a nós.  É possível que essa situação seja transformada?

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Cinco Leituras

Continuo em minha jornada de estudos sobre o cinema. Nos últimos meses, em um ritmo um pouco mais lento, pois ainda não posso me dedicar exclusivamente a este tema. Enquanto não formulo um projeto mais sistematizado de estudo, vou lendo aquilo que me cai à mão, em minhas visitas periódicas a sebos e livrarias.

Primeira leitura:
De Theodor Adorno, li três textos selecionados por Jorge M. B. de Almeida, que integram volume da Coleção Leitura da Paz e Terra: Indústria Cultural e Sociedade. Textos densos que demandam um retorno em momento oportuno, mas que me impactaram fortemente. Eis um par de trechos de A indústria cultural - o Iluminismo como mistificaçã das massas de Max Horkheimer e Teodor W. Adorno de 1947:

Os interessados adoram explicar a indústria cultural em termos tecnológicos. A particiapção de milhões em tal indústria imporia métodos de reprodução que, por seu turno, fazem com que inevitavelmente, em numerosos locais, necessidades iguais sejam satisfeitas com produtos estandardizados... O que não se diz é que o ambiente em que a técnica adquire tanto poder sobre a sociedade encarna o próprio poder dos economicamente mais fortes sobre a mesma sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação, é o caráter repressivo da sociedade que se auto-aliena (p.8-9).

Junta-se a isso o acordo, ou ao menos, a determinação comum aos chefes executivos de não produzir ou admitir nada que não se assemelhe às suas tábuas da lei, ao seu conceito de consumidor, e, sobretudo, nada que se afaste de seu auto-retrato (p. 10).

Sessenta e sete anos depois, a nossa realidade ainda se reflete nessas frases? A produção do cinema brasileiro atual, amplamente dominada por uma única empresa, me inclina a uma resposta positiva. E a produção das chamadas majors? Parece que sim, também! Mas, não vou me precipitar. Neófito no campo, preciso aprender mais...

Segunda leitura:
Com Julio Cabrera me envolvo em reflexões sobre cinema e filosofia. Professor da UnB, Cabrera reintroduz sua noção de conceitos-imagem defendendo que além de proposições que são o medium tradicional de vinculação de conceitos, em medias situacionais, típicos da literatura e do cinema, os conceitos, além de relacionar elementos intelectuais, estão fortemente carregados de afeto, e sua afetividade entra em interação com os elementos intelectuais (p. 10). A partir dessa conisderação, Cabrera aponta o cinema como um dos meios que geram conceitos logopáticos, no sentido de um complexo intelectual-sensível-afetivo (p. 11). A partir dessas considerações, Cabrera utiliza, em seu livro, a análise de vários filmes e suas proposições (conceitos-imagens) comparando-os com ideias de Aristóteles, Kant e outros filósofos.

Terceira leitura:
Do mundo das ideias para o mundo da indústria, encontro em Cineturismo de Flávio Martins e Nascimento uma introdução a esse segmento da indústria do turismo que procura se apoiar na indústria do cinema como um mecanismo de desenvolvimento local e regional.

Quarta leitura:
Do real para a ficção, leio o roteiro escrito e comentado de Como Fazer um Filme de Amor de Luiz Moura e José Roberto Torero. Este foi meu professor de roteiro na especialziação em cinema na Universidade Tuiuti. Leitura agradável que demonstra a diferença entre intenções iniciais e resultados finais, a formalização de um roteiro e os acréscimos e mudanças que surgiram durante as filmagens.

Quinta leitura:
Para fechar o ciclo, nada melhor do que o relato da experiência de um cineasta. Andrzej Wajda, diretor de cinema polonês, depois de trinta anos de experiêcnia, escreve um livro para si mesmo, contendo conselhos a um jovem cineasta de 24 anos, idade que ele tinha quando passou a se dedicar ao cinema. Composto por 36 capítulos curtos, em Um Cinema Chamado Desejo Wajda nos conta sua experiência com a realização de filmes, desde a ideia até o dia de estréia, passando por roteiro, decupagem, escolha de atores, cenografia, iluminação, montagem, etc. Não é um livro técnico, mas se aprende muito com ele sobre como fazer cinema. E como esta é uma arte coletiva e não solitária.  Ao final do livro, uma mensagem de fé no coletivo que me emocionou:

... neste livro, sempre invoco o público e procuro me identificar com os outros... Os outros e eu representamos a única força, a única esperança. Sou contra a idéia de que a arte do cinema é um mistério, e o público um mal necessário à expressão do artista.
Foi por isso que aderi ao movimento polonês de Solidarnosc (Solidariedade). Sou fiel a seu ideal, pois vejo nele o único remédio para nossa solidão estéril, para o vazio que ameaça as pessoas que estão prontas a sacrificar o bem comum por seu conforto, para quem a paz só significa o seu desejo de que lhe deixem em paz... (p. 154).

ADORNO, T. Indústria Cultural e Sociedade. 4a. Edição. São Paulo: Paz e Terra, 2002. 119p.

CABRERA, J. De Hitchcock a Greenway pela História da Filosofia (novas reflexões sobre cinema e filosofia). São Paulo: Nankin, 2007. 159p.

NASCIMENTO, F. M. Cineturismo. São Paulo: Aleph, 2009.

MOURA, L. e TORERO, J. R. Como fazer um filme de amor: roteiro. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Cultura - Fundação Padre Anchieta, 2004.

WAJDA, A. Um Cinema Chamado Desejo. Rio de Janeiro: Campus, 1989.